3 de setembro de 2011

A cocaína e o coração


“Parece cocaína, mas é só tristeza, talvez tua cidade
Muitos temores nascem do cansaço e da solidão”
Há tempos (Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá – Legião Urbana)

Vira e mexe aparece, perece ou desaparece alguma jovem celebridade com currículo de vícios por drogas ilícitas, ressuscitando o tema dos efeitos das drogas sobre o coração.
Considerada o mais potente estimulante natural conhecido, a cocaína provoca uma série de efeitos agudos que podem subitamente transformar o prazer e a sensação de revitalização em pó, com o perdão do  trocadilho.
Os principais efeitos são:
  • aumento da frequência cardíaca;
  • aumento da pressão arterial;
  • vasoconstrição ou vasoespasmo (contração das artérias);
  • favorecimento à formação de coágulos dentro dos vasos sanguíneos.
Estas alterações podem acometer qualquer órgão. No coração, as consequências podem ser desastrosas.
O aumento de adrenalina e consequente elevação da frequência cardíaca e da pressão arterial fazem o coração trabalhar mais e necessitar de mais oxigênio.
Por outro lado, o vasoespasmo e a formação de coágulos dentro das artérias do coração podem obstruir o fluxo de sangue e oxigênio para o músculo cardíaco.
Quando ocorre este desequilíbrio e as células do coração precisam de mais oxigênio do que recebem, instala-se o que é denominado isquemia, que se traduz por dor no peito. De fato, sintomas cardiopulmonares, e particularmente dor no peito, são os sintomas mais frequentes em usuários de cocaína que procuram auxílio médico.
Se a obstrução na artéria coronária for total ou importante o suficiente para proporcionar um tempo prolongado de isquemia, as células começam a morrer, configurando o infarto.
E a depender de uma série de fatores, entre os quais a localização e o tamanho do infarto, bem como o tempo para procurar atendimento, complicações podem acontecer, incluindo parada cardíaca e morte súbita.
E tudo isto pode ocorrer mesmo que o indivíduo não tenha doença cardíaca prévia ou não tenha placas de gordura nas suas coronárias, como por exemplo em jovens. De fato, estatísticas norte-americanas apontam que aproximadamente 25% dos ataques cardíacos não-fatais em pessoas menores que 45 anos podem ser atribuídos ao uso e abuso de cocaína (Qureshi AI e cols, 2001).
Além do aumento da chance de infartar, o usuário de cocaína tem um risco maior de desenvolver outros problemas de coração, como inflamação do músculo cardíaco (miocardite), “coração fraco” (miocardiopatia) e arritmias.
Mas, como falado acima, os efeitos tóxicos da cocaína podem se manifestar em qualquer órgão, de forma que o usuário pode morrer por outros modos que não infarto no coração, como por exemplo complicações neurológicas (convulsões, coma, hemorragia cerebral), pulmonares ou dissecção de aorta.
Mas será que existe um nível abaixo do qual é seguro consumir cocaína?
Talvez a dose usada pelos índios dos Andes ao mastigar folhas de coca, uma vez que eles não têm taxas elevadas de infarto do miocárdio. Porém, quando se consome cocaína purificada, ou seja, no âmbito do uso recreacional ou do vício, o que se sabe é que existe uma variação individual muito grande na resposta aguda à cocaína e uma pobre correlação entre a concentração de cocaína no sangue e seus efeitos tóxicos. São relatados casos fatais de intoxicação por cocaína com diferença de até 100 vezes na sua concentração no sangue!
Melhor não arriscar...

Fontes: várias, incluindo
UpToDate - www.uptodate.com
Qureshi AI, Suri MF, Guterman LR, Hopkins LN. Cocaine use and the likelihood of nonfatal myocardial infarction and stroke: data from the Third National Health and Nutrition Examination Survey. Circulation. 2001 Jan 30;103(4):502-6.

Veja também:
Folhas de coca e cocaína: uma breve história de seus usos medicinais

3 comentários:

  1. Com quanto tempo de uso a pessoa pode levar para desenvolver problemas no coração com uso controlado porém com certa regulariedade?

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  2. Isto é muito variável. Os efeitos tóxicos da cocaína sobre o coração podem se manifestar agudamente (mesmo quando quantidades pequenas são consumidas) ou podem decorrer do uso crônico (meses a anos). Um usuário pode apresentar efeitos tóxicos na primeira vez em que consome ou após anos de uso, mesmo se este uso for ocasional e em quantidades pequenas. Não existe nível seguro.

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  3. Por que as campanhas anti drogas, não utilizam este fato para dar um "susto" nos jovens usuários e nos usuários com idade de risco? Seria necessário maiores estudos?

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