22 de agosto de 2011

Minha pressão oscila muito...é normal?

Pode ser. É frequente os pacientes se queixarem de uma oscilação aparentemente anormal da pressão arterial quando na verdade trata-se da variação normal, que ocorre com todas as pessoas.
Lembremos que a pressão arterial, como o próprio nome diz, é a pressão que o sangue exerce sobre a parede das artérias, os vasos que conduzem o sangue do coração para todo o organismo. Como o coração se contrai e relaxa, o fluxo de sangue pelos vasos sanguíneos é pulsátil, de forma que a pressão arterial tem um componente-pico maior, a pressão sistólica (porque ocorre após a sístole ou contração dos ventrículos) e um componente vale-menor, a pressão diastólica (porque ocorre durante a diástole ou relaxamento dos ventrículos).
O mecanismo é puramente hidráulico: a pressão arterial depende da força de contração pela bomba-coração e do calibre das artérias. Se a bomba impulsiona o sangue com mais força, a pressão nas artérias deve subir. Se a bomba tem menos sangue para ejetar, a pressão deve cair. Se as artérias se alargam, aumentando o seu diâmetro, deixando mais espaço para o sangue se acomodar, a pressão deve cair. Se elas se estreitam, a pressão deve subir. Física pura.
Ocorre que todas estas variáveis, a força de contração do coração, o volume de sangue ejetado e o calibre das artérias são totalmente dinâmicas, variando momento a momento, a cada batimento cardíaco, de acordo com uma complexa equação que envolve a concentração no sangue de adrenalina e outros hormônios, bem como a inervação para o coração e os vasos sanguíneos.
Por sua vez, vários são os fatores que influenciam o nível destas substâncias no sangue e o grau desta inervação, como o nível de atividade física e estresse emocional, a postura (deitado, sentado ou de pé), a hora do dia, a temperatura, a dieta, os medicamentos, etc. Assim, é normal que a pressão arterial caia durante o sono e aumente quando o indivíduo acorda. É normal que a pressão se eleve após um esforço físico ou um susto ou receber uma notícia ruim. E é normal a pressão diminuir um pouco quando uma pessoa está deitada ou sentada e de repente se levanta. É esperado também que a pressão se eleve no frio e diminua no calor. Tudo isso são ajustes normais do organismo a situações ambientais que estão em constante mudança.
Portanto, qualquer pessoa normal pode ter uma pressão, digamos, de 160/90 mmHg em determinado momento sem que isso signifique que ela seja portadora de pressão alta. O exemplo clássico é o que acontece durante o teste de esforço: o normal é a pressão arterial sistólica se elevar durante o esforço para valores tão altos quanto 210 mmHg, descendo aos níveis normais progressivamente após a interrupção do esforço. O médico se preocupa quando a pressão sistólica não se eleva durante o esforço, o que pode indicar um problema cardíaco.
Da mesma forma, não é de se estranhar quando o médico afere uma pressão de 140/90 mmHg em um momento da consulta e 120/80 mmHg, por exemplo, após alguns minutos.
Por isso, para se fazer o diagnóstico de hipertensão arterial ou pressão alta, deve-se avaliar não uma, mas várias medidas de pressão, de momentos e dias diferentes. Deve-se ter uma ideia da média da pressão arterial, e aí sim avaliar se a oscilação está na faixa do aceitável/“normal” ou já em níveis considerados hipertensão arterial. Ou, no caso de quem já tem o diagnóstico de hipertensão, avaliar se a variação está na faixa do aceitável ou exige uma mudança no tratamento.
Devo mencionar, ainda, que existem sim situações em que a pressão arterial realmente varia além da conta, além do que é observado em média na maioria das pessoas. Isto ocorre, por exemplo, em indivíduos com diabetes ou outros distúrbios neurológicos que também podem afetar a inervação para os vasos sanguíneos. Alterações hormonais e o próprio envelhecimento normal também podem levar a flutuações exageradas da pressão arterial. Em todas estas situações, o organismo tem dificuldade para realizar os ajustes necessários para aumentar ou reduzir a pressão arterial nas situações do cotidiano.


Média da pressão arterial em cada hora em paciente que realizou exame de monitorização ambulatorial da pressão arterial em 24 horas. Repare que a pressão inicia-se em 185x105 mmHg e depois de algumas horas vai a 120x70 mmHg. Fonte: Prasad N, Isles C. Ambulatory blood pressure monitoring: a guide for general practitioners. BMJ 1996;313(7071):1535-41

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5 comentários:

  1. ótima postagem achei que eu tinha hipertensão arterial e fui ao médico e ele me disse exatamente o que esta postagem está dizendo. Parabéns

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  2. tenho cntrolado pressão em 12/8 com enalapril. Mas fico assustado quando faço coisas corriqueiras como (jogar 1h videogame, tomar banho morno) e ela vai a 15/9 ou 16/10 - preciso me preocupar ou este tipo de variação é normal, reiterando que são coisas que não me estressam, e sem quase nenhum esforço físico.
    grato antecipadamente por qualquer conselho.

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  3. Agradeço pelas informações. Sou diabetico e sempre fiquei temeroso quanto a oscilação da pressão. Com suas informações já me acalmei mais. Eu achava que a pressão tinha sempre que estar no 12/8 de sempre. Obrigado, e que Deus conserve a sua prestatividade e bom senso para com as pessoas. Boa Sorte.

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  4. Gostaria de saber se é normal uma medição da pressão arterial dá 185X11 após uma caminhada de 50 min + 5 min de trote??

    Obrigado!

    Ótimo post!!!!

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    1. A resposta normal da pressão arterial (PA) frente à atividade física aeróbica (ex: caminhada/trote/corrida) inclui aumento da PA sistólica (a maior, que pode chegar até níveis ~200 mmHg com exercício intenso) e pouca variação da PA diastólica (a menor). Portanto, se em repouso a PA está 120x80 mmHg, por exemplo, pode ser considerada normal uma elevação da PA sistólica até 185 mmHg durante o exercício, mas não se espera normalmente uma elevação da PA diastólica até 110 mmHg. Além disso, após a interrupção do exercício, espera-se que em poucos minutos a PA volte gradativamente para níveis próximos aos verificados em repouso.

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